Treinamento conjunto anuncia o fim da era do isolacionismo no judô paulista

Professores que participaram do treino do primeiro dia © Arquivo

Treinadores finalmente compreenderam a importância de resgatar uma prática do passado: a troca de experiência e conhecimento que só se faz por meio do kumi-kata e do randori-no-kata

Por Paulo Pinto / FPJudô
30 de abril de 2022 / Curitiba (PR)

Como apoio da Secretaria de Esportes de São Bernardo do Campo e da Federação Paulista de Judô (FPJudô), os coordenadores do Centro de Excelência Esportiva do Judô (CEEJ) realizaram de 21 a 23 de abril um treinamento conjunto para atletas da base.

Além dos 70 atletas do projeto desenvolvido no CEEJ, os organizadores estimam que mais de 450 judocas participaram dos três dias de atividade. Hatiro Ogawa estima que mais de 50 escolas marcaram presença no megatreino e Elton Fiebig detalhou que a Academia B9 Kihon, de São Bernardo do Campo, levou 60 atletas de jiu-jitsu para trocar conhecimento sobre luta de solo e em pé.

Outras importantes escolas de judô também participaram do treinamento, representando clubes como São Paulo Futebol Clube e Sociedade Esportiva Palmeiras e cidades como São Paulo, Santos, Atibaia, Santo André, Perdões e Franca, além de atletas de várias entidades do judô nacional.

Professores e judocas que participaram do treino do segundo dia © Arquivo

Elton Fiebig, coordenador-técnico do projeto do CEEJ, destacou que o grande diferencial do centro de excelência está sendo a difusão de conhecimentos para todas as entidades que participam dos treinos, além da troca de experiências e modelos de prática e cultura de cada clube, cidade ou associação.

“Pudemos trocar informações com diversos professores, os quais passaram seus conhecimentos para todos os atletas que lá estavam. Entre eles estavam Diego Martins, da B9 Kihon; Sidnei Silva, o Sidão, ex-seleção brasileira; Felipe Moraes (Pedra), ex-seleção brasileira e atual técnico da Sociedade Esportiva Palmeiras; Raphael Magalhães, ex-seleção brasileira; Paulo Pi, professor e vereador de Atibaia; Gildemar de Carvalho, o Gil, delegado regional do ABC; Josué Gomes Bragança, do São Paulo Futebol Clube; e o próprio presidente da entidade que, além de suar o judogi, passou um pouco da sua experiência aos jovens judocas”, explicou.

Formado em Educação Física (CREF 24588-G/MG) e especialista em fisiologia do exercício e prescrição de exercícios, Fiebig disse que no passado havia muita troca de vivência e isso parou de acontecer.

Professores Diego Martins, da B9 Kihon e Cristiano Carrion, da AD Santo André mostram técnicas de ne-waza-randori © Arquivo

“Em primeiro lugar”, argumentou, “é importante ter em conta que no judô só se ganha experiência com o tempo e a prática exaustiva, e o treinamento conjunto é o meio mais rápido de absorção de conhecimento. Aprender é ter a oportunidade de vivenciar estas experiências. Como falamos em neurolinguística, são modelos de sucesso que podem ajudar-nos a encurtar esse caminho. Então professores e atletas que têm bagagem são muito mais bem-sucedidos. São Paulo abriga um time grande de professores dotados de conhecimento, mas nem todos se expressam da mesma forma e isso acaba ecoando em determinados grupos de atletas.”

Pentacampeão mundial de judô veterano, Fiebig destacou outros pontos importantes dos treinamentos conjuntos. “No Japão, que é nossa maior referência, aproximar a criança de seu ídolo significa renovar o sonho de uma nova geração. As crianças aprendem pelo exemplo: quanto mais cedo conhecerem as rotinas e apreciarem a dedicação de seus atletas favoritos, maiores serão as chances de eles seguirem o mesmo caminho no futuro. E os treinamentos conjuntos e clínicas com atletas e professores são o melhor processo para atingir esse objetivo.”

Senseis perfilados para o rei inicial © Arquivo

Faixa preta go-dan e gestor de atletas e equipes desportivas, Fiebig acrescentou que esta aproximação trabalha a autoestima dos atletas e fomenta o sentido de união de toda uma geração.

“Todo atleta busca resultados e quer ser vitorioso, mas tudo isso só faz sentido se servir de incentivo e motivação para outros”, prosseguiu. “Não podemos ter atletas distantes da base ou grandes professores que não passam seus conhecimentos por falta de oportunidade. Livro fechado na estante não ensina ninguém. Então, possibilitar essa proximidade é valorizar quem ensina e quem aprende.”

Fiebig lembrou que, ainda como atleta infantil, em 1985, participou de um treinamento no Ginásio Pacaembu, promovido pela FPJudô e Gazeta Esportiva, que reuniu os grandes campeões da época. “Este evento para mim foi um divisor de águas e me motivou a seguir em frente, e aqui estamos hoje.”

Professores e judocas perfilados para o rei final © Arquivo

Henrique Carlos Serra Azul Guimarães, medalhista olímpico em Atlanta 1996 e coordenador-geral do Centro de Excelência Esportiva do Judô de São Bernardo, entende que o treinamento conjunto mostrou claramente a importância do encontro realizado no fim de semana do feriado de Tiradentes.

“Com ele, podemos ter um feedback fidedigno sobre o nível de cada atleta participante. Foi o resgate da troca de experiências, da troca de informações entre atletas de origens diferentes, que fazem todos crescerem. Temos por hábito treinar sempre no mesmo dojô e, com o tempo, acabamos sabendo tudo que o adversário faz. Quando realizamos treinamentos conjuntos, os atletas têm uma percepção muito mais ampla e variada do shiai. Há judocas mais gordinhos, mais altos, canhotos, destros, alguns mais defensivos e outros bem agressivos e intensos – com isso, o jovem praticante enfrenta uma grande diversidade de adversários e consegue melhorar muito sua performance técnica”, explicou o coordenador-geral do CEEJ.

O presidente Puglia participou ativamente do randori © Arquivo

Para Guimarães foi justamente essa troca que fez de São Paulo um grande celeiro de atletas, porque sempre houve intercambio, e talvez hoje os professores estejam entendendo a necessidade de retomar este tipo de treinamento. “Avalio que só dessa forma obteremos uma evolução mais rápida. Então, é treinar, treinar e treinar muito e intensamente. Temos de manter esta pegada e realizar novos treinamentos, com outros atletas, outras entidades. Tenho a consciência de que os professores estão acreditando e alguns quebrando barreiras e reconhecendo a importância de trazer seus atletas para treinos conjuntos.”

Sensei Henrique comemorou a realização do primeiro treinamento conjunto do CEEJ e lembrou que foi com base nessa prática que São Paulo conquistou as dez primeiras medalhas olímpicas de judô para o Brasil, que hoje acumula 24 pódios olímpicos, com quatro ouros, três pratas e 17 bronzes,

“Fiquei muito contente com a atitude dos professores que participaram do encontro. Parabenizo cada um deles, a federação paulista e, em nome do presidente, cumprimento também a Prefeitura de São Bernardo, cidade que abriga o centro de excelência. Acredito que desta forma teremos engrandecimento e evolução do nosso esporte.”

Jovens judocas observam atentamente o treinamento de chão © Arquivo

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